Friday, November 26, 2010

O prazer do Inferno


Qual a leitura que Olga Roriz faz do Inferno? Das suas palavras percebemos que neste espectáculo retrata o Inferno como “um lugar onde se descansa por fim a tristeza e se cansa o corpo dançante pelo puro prazer de o fazer. Um espaço de libertação e tranquilidade incontida que predispõe ao arrebatamento. Contradizendo o título, aqui o pecado não é punido. A maldade não é punida. A fraqueza também não. Inferno é um caminho interior e iniciático, polvilhado de tristezas, ironias e reconciliações. A ideia de musical, como em Paraíso, continua presente mas com um olhar ainda mais distante. Várias são as formas de expressão. As vozes unem-se em hino ou em canções de amores solitárias. Os anjos transformam-se em bobos que dançam e falam sobre alguns de nós.”

O espectáculo apresentado no passado dia 9 de Janeiro no Teatro das Figuras, em Faro, apresenta de uma forma ironia mas muito realista o lugar de todas as tentações. A queda do anjo Gabriel consubstancia-se na assunção de uma eficácia directa do poder do anjo, em oposição à crença na providência divina. O anjo determina no humano a crença absoluta nas suas possibilidades, permitindo-lhe que seduza, que cante, que dance, assumindo-se como corpo dançante perante a realidade. A humanidade aprendeu a precaver-se e o sentimento de pecado é transfigurado, assumindo-se numa vivência liminarmente humana, onde o corpo é o responsável da sua própria transformação.
A forma, ao invés de se tornar espírito, como num musical passado no Paraíso, assume a sua condição mortal e pecadora. Neste Inferno o corpo gosta de ser corpo e o castigo, simbolizado pela rede de campo de concentração é transformado num confortável salão onde as vozes se abrem ao canto e o corpo ao desejo.
Os bailarinos interpretam o desejo dos corpos, dançam e entoam cantos ao amor, à ambiguidade, à vontade obstinada e egoísta, a um universo sem juízos de valor. E é assim que podemos sentir a criação de Olga Roriz: uma entrega do corpo ao plano da liberdade, sem juízos de valor por parte do espírito ou de qualquer outra entidade que ajuíze. No Inferno os bailarinos são privados da noção de espaço, da noção de tempo através da auto-flagelação com vendas nos olhos e nos ouvidos. Mas a dança continua e, apesar da cegueira e surdez exteriores os corpos persistem em prosseguir livres, explorando o espaço que se lhes apresenta.
Olga Roriz evidencia a figura do eterno feminino, realçando o corpo da mulher com vestidos elegantes e saltos altos. No corpo do homem é também desenhada a sua masculinidade, nem mesmo quando se assume como anjo Gabriel, que seria assexuado por natureza. E persiste na sua busca de sensualidade quando dança com um corpo invisível adivinhado pelos sapatos vermelhos que conduz.
O final, em que a ideia de descontracção e preguiça desoculta a sensualidade, coloca a virtude a dançar nos braços do pecado. Quando a liberdade no gesto é assumida, a noção de pecado pode morrer, uma vez que a punição se esvai e se pode assumir alto e bom som, fazendo nossas as palavras de Adriana Calcanhoto: “Eu não gosto do bom gosto, eu não gosto do bom senso”.
A ironia de Olga Roriz esclarece as dúvidas quanto à condição humana. Presos num campo de concentração, os homens e as mulheres fazem por ignorar esses constrangimentos através da esperança de um mundo melhor, anunciada pelo anjo da providência, que lança confetis e promete que “a vida vai melhorar”. Pelo final, e pelo visão de felicidade no Inferno somos levados a acreditar que sim.
Este espectáculo, concebido e coreografado por Olga Roriz, teve um Desenho de Luz de Clemente Cuba, cenografia de Olga Roriz e Pedro Santiago Cal. A interpretar o Inferno estiveram Catarina Câmara, Maria Cerveira, Sylvia Rijmer, Bruno Alexandre e Pedro Santiago Cal.
Um espectáculo onde a fúria dionisíaca conduz a emoção para o plano do meta verbal, ultrapassando a palavra e assumido a riqueza da música e das palavras que dançam em forma de sons. As canções dançam e impõem um movimento ao corpo, por vezes desconcertante, como o momento belíssimo em que Pedro Santiago Cal constrói círculos com a sua cabeça ao som do tema de Brel “On a beu faire”.
Um espectáculo que denuncia a queda dos falsos profetas e anuncia a reconciliação do Homem com a sua essência corpórea, mergulhada no desejo e na busca do prazer. A todos os níveis, admirável.

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