Wednesday, October 15, 2008

sombras e nevoeiros


É um facto que a visão platónica da realidade influenciou de forma fundamental o modo do Homem ocidental olhar para a realidade. A divisão do real em dois planos, o inteligível e o das aparências, marcou para sempre a crença na dicotomia ser/parecer perante o real. Para se abordar uma aproximação ao ser é necessário, antes de mais, lutar contra a ilusão, afastando a ilusão. Para se contemplar a verdade, é necessário ignorar os falsos testemunhos sensoriais e seguir a linha racional que nos conduz de forma inteligente à realidade única e imutável. Para se chegar à verdade, é necessário assumir que há uma ilusão que nos tenta constantemente. Foi esse o desafio a que se propôs o Projecto Ruínas: fazer um cruzamento entre os dois planos e jogar com a verdade e a ilusão. O espectáculo Shadow Play, com encenação de Francisco Campos e apresentado no espaço da Corredoura, em Tavira, foi um autêntico jogo de espelhos e labirintos da razão. No princípio do espectáculo os quatro intérpretes, Maila Dimas, Susana Nunes, Carlos Marques e Francisco Campos entram em cena assumidamente como actores, fazendo os últimos preparativos para a sua transformação enquanto personagens. Preparam os adereços e empoam-se com uma farta quantidade de pó de talco. Autênticas figuras retiradas do pó de um sótão perdido nas memórias de um escritor. Francisco Campos dá as boas-vindas ao público e anuncia-lhe que o teatro é uma ficção na qual há uma constante busca pela verdade. Aquele espaço é uma ilusão, desde as cortinas aos adereços de cena e, por isso mesmo, irão brincar com esse limiar da verdade. Através da assunção da ficção poderemos alcançar um momento de revelação epifânica, que nos coloque face-a-face com a verdade. As regras do jogo são reveladas e prendem-se com a oposição do contraste imposto pelo desenho de luz. A oposição claro/escuro é o motor que despoleta a transposição para o plano da luz/verdade ou sombras/ficção. Depois das palavras do encenador/actor provoca-se um black-out e começam a ouvir-se vozes: as vozes das personagens. A luz vai-se insinuando aos poucos sobre os actores e vemos as quatro personagens, com figurinos da segunda década do século XX concebidos por Andreia Rocha, envergarem uma meia na cabeça, ocultando os cabelos. Esse pormenor, utilizado na técnica da máscara para conferir ao actor alguma neutralidade, funciona neste espectáculo como o indicador da dissimulação, do disfarce. E é aqui que começa o jogo das sombras que, por um lado desocultam a verdade, mas por outro a escondem. Por um lado, temos as personagens de um autor de época, vestidas com o rigor adequado, falando com a elevação esperada à classe social a que pertencem. Há uma leve evocação a Eça de Queiroz, tanto no nome de Maria Eduarda d’Eça, dado à personagem que faz de mãe, como na sarcástica crítica social contida no texto. Um texto que nos mostra personagens da alta burguesia falando da necessidade de ocupar as suas vidas sem sentido. A meio da acção os actores retiram as suas toucas da cabeça e interpelam o espectador como se estivessem num plano intermédio entre o actor e a personagem. Assumem-se à vez como narradores, assumindo o papel das didas cálias. Mudam os adereços de lugar, como se a mudança de espaço implicasse ao mesmo tempo uma mudança no tempo. Voltam a colocar a touca e a acção recomeça com as personagens de inspiração querosiana. A mãe, Maria Eduarda d’Eça, interpretada por Maila Dimas, castradora da vontade e das paixões do filho, é ela própria um espírito livre que se justifica com a invalidez do marido. Daniel, Francisco Campos, é o filho superprotegido e inútil, refém da vontade da mãe. Mariazinha, interpretada por Susana Nunes, a dama de companhia da mãe, órfã, portadora de uma infância infeliz e prisioneira dos seus desejos não satisfeitos. Por fim o pai, Becas, o oficial da marinha preso a uma cadeira de rodas, interpretado por Carlos Marques, é refém dos espasmos e dos ataques que o assaltam de rompante. As interpretações, suportadas por uma dicção irrepreensível são convincentes e colocam o espectador num contexto sociocultural do início do século XX.
A cenografia, de Sara M. Graça, estabelecem a ponte entre o real e o imaginário, criando pequenas ilhas simbólicas. Há a pequena camilha que suporta as caixinhas de comprimidos com a cobertura de renda, à volta da qual se fazem confidências, o telefone enigmático que toca e ao qual atende o comandante inválido, o rádio que passa um excerto de ópera quando o pai está a ser tratado, e máquina de costura na qual Mariazinha cose as suas mágoas e infortúnios, o diapasão que marca o compasso da vontade maternal. Todos estes objectos têm um significado que pode aproximar o espectador do estado psicológico das personagens. No jogo das identidades troca-se de lugar mas mantém-se a firmeza na consistência da personagem. Mariazinha é a única personagem que passa a envergar uma peruca, metáfora da organização e do plano racional que prova ser a única a possuir.
Os actores entram e saem de si próprios de acordo com os jogos de luz e o espectador assiste a um permanente jogo de escondidas dos actores consigo próprios, brincando com os vários matizes da sua personalidade, como se estivessem numa trama de Pirandello.
O final é assumidamente Shakespeareano, pois assume-se pela morte de quase todas as personagens. O nevoeiro subtil do monóxido de carbono insinua-se entre todas as personagens, sucumbindo uma a uma, à excepção de Mariazinha, que consegue chegar a tempo à janela e respirar o oxigénio libertador que a salvará para sempre daquela prisão espiritual. Com a família morta Maria pega na mala e parte. Parte deixando o nevoeiro das imagens deformadas e falsas. Parte, deixando sucumbir os restos de uma família que viveu uma vida falsa e sem sentido. É a única que sobrevive porque é a única genuína. E assim se assume a grande metáfora do espectáculo: é preciso matar interiormente o supérfluo para que possamos viver genuinamente. Maria parte e com ela partimos todos à procura de um lugar onde o nevoeiro se dissipe e as sombras se desocultem. Um sítio onde a vida seja autêntica. Mesmo que seja num universo paralelo.
Este trabalho resultou de uma residência artística e teve um aturado trabalho de depuração ao nível do texto. De um todo de improvisações resultaram cinquenta e oito minutos de cenas e contracenas de quatro personagens à espera do lanche das cinco da tarde. O alimento para o corpo acabou por não aparecer. O plano das sensações foi ultrapassado pelo plano inteligível e este espectáculo revelou-se como um portentoso alimento para o espírito. O caminho para o inteligível. Como a partir da ficção se pode alcançar a Verdade.

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